Escrevo porque não vivo. E sinto, tudo que sinto, porque não sei pensar direito, ou penso muito, não sei. Escrevo porque me faltou coragem pra fazer outra coisa que não seja remoer tudo minuciosamente e vomitar depois. Gosto muito de vomitar, problema que vomito pra dentro.
A vida é fácil quando a gente decidi ir frente, sempre em frente, sem parar pra reconstruir as partes que se quebram todos os dias, ou melhor, reconstruir enquanto segue adiante. Esse tipo de pessoa que se remonta todos os dias, é com certeza, o tipo de pessoa que sabe viver. Mas, tem o meu tipo de pessoa, que desaprendeu a ir em frente e vive se perdendo em linha reta. Tudo dói, a vida dói e o meu tipo de pessoa só sabe doer.
Escrevo pela falta. Amo pela falta. Morro pela falta. E vivo de novo pela falta. Sou um monstro carente e suicida, que se culpa ferozmente por tudo que não teve coragem de destruir. Meu tipo de pessoa é acumulador, acumulamos tudo, de bom e de ruim, acumulamos porque não sabemos perder ou deixar. Nos diferenciamos dos cachorros porque eles sempre recebem com o rabo sorrindo, a gente sempre se despede com o rabo sorrindo e recebe com o rabo entre as pernas, andando pelos cantos com o olho cheio de remelas e vergonhas.
Repara que não tenho coerência? Percebe que aqui dentro está tudo derretendo? Estou caindo de novo e escrevendo de novo. Esse é meu tipo de pessoa: que cai e escreve, pela falta e pelo acúmulo. Por amor e por não sentir nada, esse é meu tipo de pessoa. Que não sente e sente muito por isso.